sábado, 14 de fevereiro de 2026

Carnaval "É Procissão de Alegria" na Memória de Elzy Russo Amorim



 Elzy Russo Amorim

    O Carnaval, definido por muitos como a maior e mais bela festa popular brasileira, ganha contornos afetivos e históricos no relato da colunista Elzy Russo Amorim. Para ela, falar da folia com entusiasmo e emoção é resultado de ter vivido, de perto, “o maior espetáculo da Terra”. 
     Ao recordar os carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo, dona Elzy destaca que as escolas de samba encenam, no universo do samba, valores de grande conhecimento histórico. Segundo ela, por meio de pesquisa, composição da letra, criação da melodia e concepção artística, o carnavalesco define fantasias, cores e todo o enredo que ecoa na passarela, despertando emoção nos corações dos espectadores. 
     Ela descreve a organização do desfile: abre-alas, comissão de frente, diretoria da escola, bateria e sua rainha, passistas, ala das baianas, mestre-sala e porta-bandeira, além das alas com seus componentes, todos dando sentido figurativo e visual ao samba-enredo — geralmente baseado em temas da história brasileira — apresentados em fantasias e carros alegóricos. 
     Ainda jovem, o interesse pela cultura carnavalesca nasceu por meio da leitura das revistas ‘O Cruzeiro’ e ‘Manchete’, onde admirava fantasias luxuosas e originais exibidas no Teatro Municipal, além dos noticiários sobre os desfiles das escolas. A televisão também ampliou esse conhecimento, inclusive com a divulgação dos resultados finais. 
     Dona Elzy ressalta que o trabalho das escolas é constante ao longo do ano. Cada agremiação defende suas cores e sua bandeira, envolvendo a comunidade na busca pela vitória. “Suor e sangue, responsabilidade, compromisso, irmandade e criatividade” são, segundo ela, armas poderosas em uma disputa acirrada, na tentativa de alcançar os primeiros lugares ou ascender de grupo. 
     Na cadência do samba, explica, a classificação depende de quesitos avaliados por jurados — comissão de frente, harmonia, fantasia, ala das baianas, alegoria, samba-enredo, bateria, evolução, mestre-sala e porta-bandeira — todos regidos por regras disciplinares. E qualquer imprevisto durante o desfile pode comprometer o sonho de um ano inteiro. 

Nas passarelas do samba 

     Uma lembrança marcante ocorreu em 1986, quando, durante viagem a Cabo Frio, ela e a família visitaram as quadras da Mangueira e da Portela. Na verde e rosa, conversaram com integrantes; na Portela, acompanharam passistas e ensaio do casal de mestre-sala e porta-bandeira. “Para mim foi um presente que estava escrito nos planos de Deus”, relata. 
    Em 2003, o cartunista Ziraldo Alves Pinto foi homenageado pela Nenê de Vila Matilde, tradicional escola paulista. O saudoso colunista social Tião de Lima reuniu um grupo de caratinguenses, entre eles, dona Elzy e os filhos Roberto e Edra. Ela e Edra foram convidados a desfilar em um dos carros alegóricos. 
    Já em 2012, Ziraldo voltou a ser tema de enredo, desta vez pela escola Tradição, no carnaval carioca. Mais uma vez, caratinguenses marcaram presença na Marquês de Sapucaí. Dona Elzy e Edra desfilaram em carro alegórico, agora mediante convite programado. “Vivemos novamente a emoção de sentir o entusiasmo, a euforia e o carinho dos espectadores”, recorda. 
    Em 2018, a família assistiu ao Desfile das Campeãs no Rio de Janeiro, que reuniu escolas tradicionais como Portela, Mangueira, Salgueiro, Mocidade Independente de Padre Miguel e Beija-Flor, campeã daquele ano. A escola de Nilópolis emocionou o público com o samba-enredo “Monstro é aquele que não sabe amar! Os filhos abandonados da Pátria que os pariu”, levando a multidão ao delírio. 

A primeira participação em Caratinga 

    Elzy relembra que, após mudar-se para Caratinga em 1956, participou do primeiro carnaval na cidade durante o governo do Dr. Maninho. Na Avenida Olegário Maciel, foi surpreendida por um desfile marcante. Sua filha, fantasiada de espanhola, acabou convidada a integrar o carro alegórico “Dragão Dourado”, com apoio do saudoso Cabo Mário. 
    Após anos de silêncio no carnaval de rua, os clubes Municipal e Operários mantiveram a tradição com bailes animados. Mais tarde, o Caratinga Tênis Clube (CTC) assumiu o comando da festa. 

Doidim Paquerê e a retomada da folia 

     Em 1980, Edra e Catitu criaram o bloco caricato “Doidim Paquerê”, que desfilou com jovens fantasiados de branco, preto e verde, reacendendo o espírito carnavalesco na cidade. A repercussão incentivou o então prefeito Dr. Fabinho a retomar oficialmente o carnaval, com desfiles na Avenida Catarina Cimini e clubes novamente lotados, sempre com abertura da irreverente banda “Alô Mamãe”. 
     Esse período foi registrado no livro ‘E Foi Assim…/ A História do Bloco Carnavalesco que Marcou uma Geração’, lançado em 2005 por Edra — carnavalesco, mestre-sala e compositor. Dona Elzy faz questão de homenagear o filho Roberto, responsável por interpretar as músicas do bloco durante anos, sempre iniciando com o bordão “Arrepia moçada”, antes da bateria entrar em ação. Ela também recorda os bailes no Palácio de Cristal, promovidos pelo E.C. Caratinga, com concursos de fantasias e matinês animadas, além do talento do carnavalesco J.B. Coelho, vencedor em diversas ocasiões com figurinos luxuosos. Após novo período de silêncio em Caratinga, dona Elzy e o esposo foram homenageados em Carangola, terra natal do casal, com o samba “Velhos Tempos do Amor”. Anos depois, já viúva, voltou a desfilar representando a Princesa Isabel, ao lado do filho Roberto. Entre 2011 e 2015, Edra ainda criou o bloco “Que Merda, Hein!?”, movimentando novamente a folia local. Ao longo da trajetória, recebeu títulos carinhosos: “Rainha do Carnaval”, pelo Dr. Fabinho; “Eterna Musa”, pelo Dr. Hélio Amaral; e “A Nossa Carnavalesca”, pelo povo de Caratinga. E conclui com a definição que resume décadas de vivência na avenida: “Carnaval, para mim, é uma procissão de alegria.” 

Diário de Caratinga: 14/02/2026



Elzy Russo Amorim e seu filho Edra. Escola Tradição, carnaval Rio 2022



Cartunista Edra e sua mãe, Elzy Russo Amorim
Desfile das campeãs / Carnaval do Rio 2018


Bloco "Doidim Paquerê"



Dona Elzy e seus filhos Edra e Roberto
Nenê de Vila Matilde - Carnaval de São Paulo / 2003


Bloco "Que Merda, Héim!?"





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